sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

mais um

é isso aí
ano novo chegando
vamos deixar de expectativa
e fazer o que for possível pra viver direito a vida

sejamos bons, todos
e que 2012 seja bom também!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

quatorze do doze

folhinha virada
sabor de vida nova
mais um ano transcorrido
e um único, mas grande feito cumprido
consegui deixar para trás
muita coisa que não me serve mais
agora é bola pra frente
e fazer um ano 48 diferente

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

a véspera da véspera

na contagem regressiva pros 48
pego-me mais emotiva do que o costume
deve ser a lua cheia
deve ser o saco cheio
deve ser o desencanto de ver
que a gente olha mas não entende
alonga mas não estende
vive mas não aprende



(meus parabéns aos brilhantes criadores deste vídeo)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

palco e preconceito

uma senhora diz a um rapaz
que não pode respeitá-lo
porque ele não segue a religião católica
um bispo evangélico associa
o 666 da besta às tatuagens
e as condena às coisas do demo
um parlamentar chama de gay a presidente da república
e confunde a democracia com um ato ofensivo
que não deveria ser considerado ofensa

perdida entre espanto, revolta e desprezo
penso em como enfrentar o preconceito
sem dar a ele palco desmerecido
talvez o melhor antídoto
seja mesmo um ensurdecedor silêncio

terça-feira, 15 de novembro de 2011

palíndromo e susto

ah livre ervilha
eu sempre tão destraída
carrego sina pela vida
descuidada de tanta maravilha

(gracias para sempre, F_R_A_G_A)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

um pelo outro

a solução não veio
mas o problema também não
pra você ver que cai do arreio
quem sofre de antemão

terça-feira, 1 de novembro de 2011

domingo, 30 de outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

sonhando/planejando

quando eu for 
gente grande  
dona única  
do meu destino   
todos os meus dias 
serão um quieto   
e saboroso domingo  


sábado, 13 de agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

a véspera do dia útil

adubar as flores e tirar os galhos feios 
arrancar o mato e molhar os canteiros 
separar um ossinho para os cachorros 
salvar um calango do bote dos gatos 
cozinhar um feijão vermelhinho
tomar café com bolo quentinho

a vida corrida já vem me pegar 
mas eu tenho meu jeito 
de um domingo se encompridar

 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

preguntas, preguntas...

se alguém despeja um balde de liberdade no seu colo
o que você faz com ela?
liberdade é tudo igual, ou existe uma gradação
entre a concedida e a conquistada?
optar pela transparência e pela oposição à falsidade
é liberdade ou é roubada?
se alguém despeja um balde de liberdade no seu colo
o que você faz com ela?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

é fim de tarde e brasília nos brinda com um pôr do sol daqueles














presa no trânsito, penso num amigo que responde
ao trivial "tudo bem?" com um sábio "há momentos"
de repente isso me parece um grande segredo 
o cantinho onde a felicidade se esconde 
 
pasma com meu espanto sem nexo
lembro-me de outro amigo, há tempos sumido
que nos diverte devolvendo a todo "e aí, cara?"
um rascante "e aí digo eu, perplexo"

perplexo, o relógio do carro registra
são dezoito e sete 
de dezoito do sete
o sol já se foi, mas fez uma bela visita

terça-feira, 12 de julho de 2011

pas mal, pas mal

suspensa a fusão pão de açúcar com carrefour
fica um alívio
era só o que faltava 
faltarem guloseimas casino no nosso convívio

´ve been better

um dia
eu queria
desligar tudo o que é feio pentelho aborrecido
na minha vida
sair descalça pelas flores pelas estrelas pelas estradas
ensolaradas

um dia
eu queria
uma estrada ensolarada

sexta-feira, 1 de julho de 2011

p.s.

acho que sábado vou comer uma feijoada
algo que justifique essa enjoada
gastrite que toma conta de mim

taken for granted

a gente às vezes é tão tonta
que acha que conquistou
um lugar na vida
o respeito de alguém
o elementaríssimo direito ao sossego e à paz cotidiana

vai, boba, ser gauche na vida
sábia adélia já dizia que isso era praga pra homem
"mulher é desdobrável. eu sou"
eu sou, adélia, desdobrável
infelizmente, sou quebrável também

terça-feira, 14 de junho de 2011

sábado, 4 de junho de 2011

balada do direito à ficção

eu vi el rey cair de quatro
com suas patas reluzentes
e mais de trinta em torno
mostrando os dentes

eu vi el rey cair de quatro
depois de fritar tanta gente
se arrastando pra queda

eu vi el rey cair de quatro
com tantas caras diferentes
em torno de seu trono
ninguém decente

sexta-feira, 13 de maio de 2011

sábado, 7 de maio de 2011

mais a fim de descer

essa obrigação de ser feliz, dar conta, realizar
vai acabar nos matando um dia
só por hoje, o que eu queria
era uma tecla pause pra apertar

domingo, 17 de abril de 2011

nem mais, nem menos

a vida anda assim, assim
mais pra boa que pra ruim
mais erasmo que roberto
apesar do que vem por perto
não quero mais briga perdida
esqueço aliança rompida
do anel que era vidro e se quebrou
fica o que tinha e se acabou
a lição, do tempo da minha avó
é se não vale a pena, não tenha dó

sexta-feira, 1 de abril de 2011

cora e o poço

há muitos anos sou fã de cora rónai. inteligente, bem sucedida, e ainda por cima filha de paulo rónai,  invadiu a seara da informática quando só homens se achavam capazes de desvendar tanto mistério.

mas esta semana, a crônica notícias do fundo do poço me provocou tamanha empatia que preciso dividir com vocês (se quiserem ler antes de continuar, cliquem em http://cora.blogspot.com/.  belíssima leitura.)

nunca li um texto tão preciso sobre depressão. não, não adianta mudar de lugar, porque ela não vai ficar na gaveta esperando a gente voltar. sim, os sentimentos ficam mais que exacerbados. e pior - sair da cama requer uma coragem que um deprimido, via de regra, não tem.  e vou completar por minha conta: quem enche o saco de um deprimido porque com exercício físico ele vai melhorar merece 3 anos de solitária. só pra calibrar o desconfiômetro.

há coisas que só quem enfrentou a doença sabe o quanto irritam. o amigo que insiste que você TEM QUE FICAR BEM. ah, claro, já que eu deprimi por motivos fúteis. tava à tôa e decidi experimentar uma emoção nova.  ou talvez nossa amizade só interesse se eu for uma pessoa super alto-astral. deprimida, não sirvo. a amiga bem intencionada e leitora do paulo coelho que te diz carinhosamente que a vida é uma tela, mas o filme quem escolhe é você. ahhhhnnnnnn.  e a amiga querida mas bicho-grilo que quer te levar pruma noite de danças circulares sagradas?

mas aí vem a cora e solta a grande verdade: lutar contra o fundo do poço é praticamente impossível.  e vou ser honesta:  o amigo que te ajuda de verdade nessa hora é o que te aceita deprimido, com fobia social, com pavor a festejos e a conversas de manicure.  porque  - aprendi - o fundo do poço tem mola. mas são aqueles que abriram os braços pra você de maneira incondicional que você vai querer ao seu lado, após a dolorosa subida.

a cebola

completando o post anterior, aqui vão dois links.  um é a ode à cebola, de pablo neruda: 
http://www.cantodelgusto.com.br/curiosidades/ode_cebola.html

e um link pra complicada arte de ver, de rubem alves: 
http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u947.shtml

esclarecendo que recebi da irmã só os dois primeiros parágrafos do texto do rubem alves.
:)

terça-feira, 29 de março de 2011

ver é mesmo complicado

tudo começou com a "ode à cebola" do pablo neruda, parte da belíssima "a complicada arte de ver" do rubem alves, que recebi de minha irmã. era pra ser daquelas belezuras que só as sortudas que têm irmã conhecem. aquelas manifestações de amor da igual pra igual, mesmo quando não são univitelinas. 
mas o diabo da cebola me fez chorar. não só pela beleza da analogia da irmã generosa, que me mandou o texto sabendo que eu gosto de observar, de cozinhar, de escrever. 
a cebola me ardeu fundo. descascou a incompreensão do incalculável alcance da maldade. me remeteu ao final da semana passada, quando, horas após ter sido vítima daquela merda do golpe do "sequestrei seu filho" com um filho de chocadeira chorando ao fundo "mãe, mãe, me assaltaram, mãe, socorro",  a mesma e única irmã me telefonou pra testar a temperatura e pressão e as encontrou altíssimas. e tentava me acalmar:  "lembre-se de que o mundo está cheio de gente boa!"  e eu gritava, descontrolada: "não está não!  se estivesse, a vida não era assim!"
como por óbvio, a revolta passou, mas o espanto não.  não, irmã querida, o mundo não está cheio de pessoas boas. elas existem, taí você como mais bela prova.  mas a ode à cebola ganhou subitamente a conotação contrária à de neruda, que só tinha olhos para a beleza, para a perfeição do círculo concêntrico, para a mandala escondida no pimentão, no tomate, no pepino...
enxergar a beleza é e sempre será uma bênção.  mas o descascar pode expor desumanidades mais que harmonias,  fedores mais que simetrias, cortes na carne mais que sabores destacados.
ao fim e a cabo, fica sempre a faculdade do livre arbítrio. sempre poderemos optar pela bondade, pela empatia. pela caridade, pela simpatia.  sempre poderemos cortar a cebola e chorar ante tanto ardor e beleza. 
os caminhos estão aí. são nossos. a escolha é o que faz a diferença.

terça-feira, 22 de março de 2011

fino fio

a linha tênue
que nos sustenta
balança a qualquer brisa
estica-se quando aguenta
rompe-se e não avisa

só às aranhas foi concedido o dom de tecer a linha da vida indefinidamente.

sábado, 12 de março de 2011

pós-maremoto

na última sexta-feira, nós ocidentais fomos acordados pelas imagens da tragédia no japão. passamos o dia no impacto daquela língua negra de água arrastando velozmente tudo o que encontrava pela frente. não estou segura, mas imagino que descontando os psicopatas, que entre outras coisas não possuem empatia, todos passamos o dia com um nó no estômago, principalmente porque ao horror das imagens somou-se um localizado acidente nuclear, de proporções ainda não muito claras. 
chegando em casa à noite, fui recebida pela corrida de meus dois sobrinhos, que entraram comigo para papear. conversa vai, conversa vem, chega o inevitável assunto japão, a tragédia, o tsunami, os últimos acidentes naturais de proporções similares. foi aí que o bernardo, do alto dos seus 10 anos, me pergunta se esse foi um dos maiores terremotos de que temos notícia, e já emenda no raciocínio de que antes de existirem o homem e a máquina que mede os terremotos,  lá  no tempo da pangeia, os terremotos deviam ser maiores, né, senão eles não teriam conseguido dividir os continentes, que até hoje se encaixariam todinhos, se a gente conseguisse.  
meu sobrinho de 10 anos discursando sobre pangeia.  eu sei que é egoísmo, mas é uma alegria quando a tragédia está distante da gente.

sábado, 5 de março de 2011

navegar é preciso

o cansaço é duro
vence a vontade
e a maior das esperanças
mas ele dói mesmo
é quando cansa tão fundo
que a gente se cansa de cansar

domingo, 27 de fevereiro de 2011

dans mon île

não adianta acreditar na capa do batman.

sempre chega a hora em que a gente prega, mas prego mesmo, total e irrestrito. por sorte, o fatídico dia chegou num belo domingo, com direito a tarde chuvosa e tudo o mais. risotinho gostoso devidamente filado na casa da irmã, duas flutes de espumante, que ninguém é de ferro, e cama! eu e meus gatos,  et l'on paresse sans songer à demain.

principalmente porque demain o despertador vai cruelmente me lembrar que, mesmo na minha ilha, só será domingo de novo no domingo que vem.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

o soninho de astrid


domingueira

vai terminando o domingo, primeiro dia depois de reinstaurado o horário oficial (odeio horário de verão, mas esse pode ser tema pra outro dia, porque hoje vou curtir cada um dos 60 minutos devolvidos).

tomo a-que-le banho cheiroso, visto uma malha bem podrinha, sento-me com as revistas semanais e mensais,  meus gatinhos exaustos todos na cama comigo, depois da caça a uma lagartixa que felizmente não deu em nada, ligo a tv e o computador, tudo ao mesmo tempo agora. mas tanto apetrecho não impede aquele momentinho mais precioso da semana: o balanço.
1. por tudo o que é mais sagrado, declaro e assino: adoro minha casa. meus gatos, meus cachorros, meus sobrinhos entrando e saindo, minhas orquídeas. e nunca será pouco registrar.
2. cozinhar me faz falta. mesmo que a mami, com aquela generosidade atávica que só ela exerce em tamanho grau, tenha trazido a melhor galinhada que qualquer ser humano saiba fazer.
3. cuidar do jardim me faz falta. ainda que as causas sejam nobres, urgentes e necessárias, se eu não for ali fora um minutinho e meter a mão na terra, não foi domingo pra mim. em algum canto de minhalma, domingo rima com minhoca.
4. meu filhão me faz uma falta danada. mas ele tá com a namorada, curtindo o maior london calling, eu aguento.
5. quando foi que as pessoas desaprenderam a arte de discordar em silêncio, ou ao menos com respeito à opinião do outro? não sei vocês, mas faz tempo que eu não vejo duas pessoas discordarem sobre um fato (às vezes nem tanto, o que é mais curioso)  sem ouvir "babaca"  pelo menos 30 vezes. que diabos???

adoraria continuar. mas astrid, minha malhadinha caçula, aboletou-se atrás da minha cabeça e tá ronronando tão gostoso que eu vou desligar o computador e pegar o livro do agualusa - pra encerrar meu domingo com chave de ouro e não atrapalhar o soninho da minha gatinha.

pelo menos por hoje, acho que entendi todos os fatos que me cercaram. e nem usei todos os 60 minutos. ufa.

SOLDADOS -Clip Daniel Ervilha Lopes 14 anos

n

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

falar ou calar

"gente, já está acabando o mês, o tempo voou e eu não fiz nada!" é a frase que mais tenho escutado ultimamente. não, corrijo-me. mais do que essa, o que mais escuto é "sabe fulano? pois descobri que ..." ou "menina, babado forte!", e por aí vai.

eu, pra variar perplexa, tento compreender a dualidade entre a falta de tempo para viver e a sobra de tempo para falar mal dos outros.

não sei vocês, mas ando cansada de me espantar com o ser humano. de testemunhar maldades e pequenezas gratuitas, como se as pessoas tivessem necessidade de se levantar da cama pra se vingar de alguém. de saber que aquela pessoa que te enche de abraços e te apresenta a outros como "minha amiiiiga" se diverte com intriguinhas na sua ausência.  como se te encher dos is da dita amizade compensasse o hábito do comentário venenoso.

o diabo é como reagir a isso. na maioria das vezes me calo, me agrada o silêncio retumbante quando um escândalo é esperado. mas preciso confessar que tem horas que a vontade é de sugerir: vá baixar um livro bem legal no seu ipad e vê se me erra!!!!

domingo, 30 de janeiro de 2011

comer com ervilha

domingão com tempinho mais ou menos. bom pra comer uma massa gostosa. vou fazer um 'linguini al limone e piseli'  inspirado na receita do
http://technicolorkitchen.blogspot.com/2011/01/linguine-com-ervilhas-e-limao-siciliano.html
hoje vai acompanhado de um filé bas-tan-te mal passado :)

ps - muitos já sabem, mas nunca é demais lembrar.  comida com amor e ervilha vai ser sempre uma delícia, tá? ;-)

corujando

bernardo, meu sobrinho apronteiro e aprendiz de cozinheiro, agora tem um blog pra dividir receitas e aventuras na cozinha.  visitem, sigam e depois me contem!

http://dicasdobe.blogspot.com  (acho que agora vai. de qualquer modo, o link tá lá no pé da página do blog)

passando tempo

sinto falta do ponteiro de segundos. de repente me dei conta de que meus relógios de pulso e de parede só têm dois ponteiros.  o mais fino, rapidinho e barulhento, foi aparentemente eliminado desse artefato já quase ultrapassado, embora ainda seja o mais elegante.  (só uso relógios de ponteiros.  acho os demais de uma cafonice de pochete.  lembram aquela primeira leva de relógios de mesa numéricos, feitos de rolos de números que caíam num ploft medonho.)

sempre gostei de observar o ponteiro de segundos.  dava-me a impressão de que, se eu prendesse a respiração, ele pararia um segundinho ou dois, o que me concederia poder absoluto sobre o tempo.  talvez seja isso.  nos levaram o ponteiro de segundos quando nos levaram o poder sobre nosso tempo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

escusas

dou-me conta de que prometi pitadas de culinária e pequenas alegrias, além do espanto melancólico que tem dominado este espaço.

prometo me esforçar para arrancar-lhes um sorriso eventual.

pessimismo

já não há generosidade nem tolerância
nem um único trago de companheirismo de espécie
cada vez mais sozinho, menos fraterno, mais desigual
o ser humano prova-se um equívoco de proporções desumanas

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

dez do um do onze

se eu puder calar
silenciar minhas angústias
deixar passar o turbilhão
acalmar as marcas
aquietar o meu pulsar
talvez as dores se afaguem
as luzes se acabem
as coisas se apaguem

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

me lavam a alma

(para léo bijos)

antes da chuva, escurece
depois da insônia, amanhece
em má companhia, enlouquece
em braços macios, adormece

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

decididamente, férias

o tempo firma, não firma
eu penso faço, não faço
a chuva cai, não cai
melhor ver um filme e cuidar dos meus gatos

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

perdas e ganhos

(não se espantem nem me recomentem estabilizadores de humor. ambas as notas - a anterior e esta - buscaram cuidadosamente a exatidão do desejo e da constatação.)

findo o ano, feito o balanço, surpeendeu-me uma triste certeza:  perdi a confiança no ser humano. não num ser específico, nem no humano genérico. perdi, dolorosamente, a confiança nas pessoas. ou em quase todas - devo ser justa e reconhecer que a aspereza que me levou o encanto trouxe-me também belas surpresas. o cômputo geral, porém, não é de fazer sorrir. principalmente a mim, que nasci ignorante das trevas e vivi otimista por tantas décadas.

cara no muro, mas convencida de que da vida o melhor é ela mesma, só me resta recomeçar. devagar como quem aprende um ofício novo, com o cuidado das mãos grossas que experimentam a ourivesaria. aproveitar a troca de agendas e apagar aniversários e demais vestígios. usar o espaço vazio para anotar outros tantos nomes, emails, telefones. treinar a esperança com persistência de aprender a assobiar. suportar as feiúras humanas, fora e dentro de mim. praticar o silêncio e a discreta retirada. não deixar de perder toda oportunidade de expressar meu desagrado. guardar para mim as mazelas que não interessam a mais ninguém. manifestar-me com a parcimônia de quem tuíta contando caracteres.

e torcer pela transmutação. pelo momento em que o desencanto se transforme em cinza que o vento converta em fumaça que seja interpretada como sinal bom:  habemus fiduciam.